Transtorno do pânico: por que as sensações do corpo passam a assustar tanto?

Ilustração representando sensações físicas intensas associadas ao pânico
Ilustração representando sensações físicas intensas associadas ao pânico

Um ataque de pânico pode reunir, em poucos minutos, sensações físicas intensas e a impressão de que algo grave está prestes a acontecer. Palpitação, falta de ar, tontura, tremor, aperto no peito e sensação de perda de controle podem ser interpretados como sinais de desmaio, infarto, loucura ou morte.

No transtorno do pânico, o medo não fica restrito ao ataque. A pessoa pode começar a vigiar o corpo, evitar lugares e organizar a rotina em torno da possibilidade de uma nova crise.

Como o ciclo do pânico se mantém

Modelos cognitivo comportamentais atribuem um papel central à interpretação das sensações de ansiedade. Uma pequena mudança no corpo chama atenção, é interpretada como ameaça, aumenta o medo e, com isso, intensifica as próprias sensações.

Esse ciclo ajuda a entender por que uma sensação comum, como o aumento dos batimentos após subir uma escada, pode se tornar assustadora para alguém que aprendeu a relacioná la a perigo.

Sensibilidade à ansiedade

Sensibilidade à ansiedade é a tendência a interpretar sensações ligadas à ansiedade como perigosas. Não é apenas sentir o coração acelerar. É acreditar que essa aceleração significa que algo catastrófico vai acontecer.

Quando isso ocorre, a pessoa passa a temer não apenas situações externas, mas também as próprias reações do corpo.

Atenção às sensações físicas

Pessoas com pânico podem aumentar muito o monitoramento do corpo. Alterações pequenas que antes passariam despercebidas ganham destaque. A atenção seletiva aumenta a percepção das sensações e fornece mais material para interpretações ameaçadoras.

Fuga, evitação e comportamentos de segurança

Sair rapidamente de um local, evitar exercícios, sentar perto da porta ou carregar determinados objetos “por garantia” podem reduzir a ansiedade no curto prazo. O problema é que essas estratégias impedem a pessoa de descobrir se o perigo realmente aconteceria sem elas.

Com o tempo, a vida pode ficar cada vez mais organizada para evitar sensações e situações associadas ao medo.

Como a TCC trabalha o transtorno do pânico

O tratamento inclui psicoeducação sobre o ciclo do pânico, avaliação das interpretações feitas diante das sensações e experimentos que permitam testar previsões de forma segura.

Pensamentos como “vou desmaiar”, “vou perder o controle” ou “isso é um infarto” são examinados a partir da história do paciente, das evidências disponíveis e do que acontece durante experiências planejadas.

Exposição a situações e sensações

Quando a evitação participa da manutenção do problema, a exposição pode aproximar gradualmente a pessoa de situações que passaram a ser temidas. Também pode ser utilizada a exposição interoceptiva, que envolve exercícios planejados para produzir sensações semelhantes às que costumam ser interpretadas como perigosas.

Esses exercícios precisam fazer sentido para a formulação do caso. Sintomas novos ou dúvidas sobre origem física devem ser avaliados adequadamente, e a psicoterapia não substitui investigação médica quando ela é necessária.

Pânico e agorafobia

Algumas pessoas passam a evitar lugares em que imaginam que seria difícil sair, receber ajuda ou lidar com uma crise. Transporte, filas, locais cheios, viagens ou permanecer sozinho podem se tornar fontes de medo.

Nesses casos, o tratamento considera tanto o medo das sensações quanto a rede de situações que passou a ser evitada.

Estratégias adicionais

Dependendo do caso, podem ser incluídas estratégias de respiração, relaxamento, educação de familiares e intervenções voltadas a outros problemas que estejam contribuindo para o quadro. Esses recursos não substituem o trabalho sobre interpretações, evitação e exposição quando esses processos são centrais.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica individual. Diagnóstico e tratamento dependem da história, do contexto e das necessidades de cada pessoa.

Referências

  1. Bieling, P. J., McCabe, R. E., & Antony, M. M. (2008). Terapia cognitivo comportamental em grupos. Artmed.
  2. King, A. L. S., Valença, A. M., Melo Neto, V. L., & Nardi, A. E. (2007). A importância do foco da terapia cognitivo comportamental direcionado às sensações corporais no transtorno do pânico. Revista de Psiquiatria Clínica.
  3. Manfro, G. G., Heldt, E., Cordioli, A. V., & Otto, M. W. (2008). Terapia cognitivo comportamental no transtorno do pânico. Revista Brasileira de Psiquiatria.

Atualização e diretrizes consultadas

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113).
  2. Papola, D., et al. (2023). CBT treatment delivery formats for panic disorder: a systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. Psychological Medicine, 53(3), 614–624.
Júlio Alves durante apresentação em congresso

Júlio Alves

Psicólogo, psicoterapeuta, professor e pesquisador. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e mestre em Ciências do Comportamento pela Universidade de Brasília. Os textos deste site são revisados para preservar precisão conceitual, clareza e referência às fontes utilizadas.

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